Ampliação do Porto
Irineu Nalin
Recebo e-mail originado do “Movimento nossa ilha mais bela” contrário a ampliação do porto de São Sebastião. Defendo o exercício de cidadania, essa participação é o caminho para aperfeiçoamento democrático. Nesse sentido, acabo envolvido. Alguns argumentos do manifesto são válidos outros levados pela emoção deixam de lado a razão.
Vejamos: as condicionantes da natureza privilegiam o canal (1) como o melhor atracadouro de nossa costa e que por razões históricas de concessão priorizou Santos; os fatores econômicos são mais fortes; a industrialização do Vale impôs novas demandas; não se pode conceber um porto moderno sem ferrovia; a comunidade deve participar atentamente exigindo um sério estudo de impacto ambiental e a atualização da viabilidade econômica, etc.
São Sebastião perdeu o bonde na história. No passado chegou até haver cerimônia de pedra fundamental da ferrovia. No Governo Laudo Natel a Secretaria dos Transportes, através do Dep. Hidroviário contratou um estudo de viabilidade econômica, realizado pela Brasconsult – Engenharia de Projetos S.A. Verifico nesse relatório final de 74 pg. que a proposta pouco difere da atual.
O mais significativo é que depois de 37 anos desses estudos as áreas propostas como retro porto, pátio ferroviário, silos, etc. foram ocupadas pela urbanização. Se os governantes estivessem seguros da necessidade de um porto significativo e não marginal, deveriam ter preservado essas áreas. O próprio poder público tomou conta desse espaço, implantando equipamentos como Centro Esportivo, Fórum, liberando loteamentos e urbanizando o bairro do Topo. Naquela época toda essa área do Topo, Varadouro até a praia Grande estava desocupada. Essa limitação acaba conduzindo mais a necessidade do aterro do Araçá que já era previsto como também o terminal de containers. Mas, sem muito espaço nunca poderá ser um porto moderno, onde se aplica o conceito complexo porto-indústria.
Naquele estudo os consultores trabalharam com hipóteses centradas na exportação de milho e importação de carvão destinado a Cosipa. Atualmente o perfil é outro e o milho é canalizado por Paranaguá e Santos. Foram indicados sistemas por duto e teleférico e para a ferrovia cinco alternativas de traçados, ligando o porto ao planalto, via São José dos Campos e Anel Ferroviário, com rampas de 1% a 2% e trajetos em túneis que variavam de 40% a 76% e ainda uma ligação de menor distância e custos a Santos, via Piaçaguera, com rampas de 1,5% e 10,4% do traçado em túneis. Os berços da proposta atual são os mesmos daquela, embora nesta, tenham sido deslocados mais ao sul, onde havia sido considerado ser mais vulnerável aos efeitos das correntes.
Durante esse tempo ocorreu parte do aterro no Araçá e em frente à Rua da Praia. O porto ficou estagnado e pouco se mobilizou tanto a favor como contra. A ocupação irregular se espalhou e nada teve a haver com o porto, tome-se, por exemplo, Say, Juquey e Maresias, que estão muito distantes. Isso também ocorre em Ilhabela. Lá o riacho que deságua ao lado da Câmara Municipal recebe a montante, na trilha do Cantagalo lixo e esgoto de ocupações irregulares. Estruturas questionáveis avançam sobre o mar, tanto no continente como na ilha, loteamentos absurdos podem ser vistos na encosta da ilha. Em São Sebastião a verticalização foi barrada, não sei até quando, enquanto em Angra as Usinas Nucleares se consolidam.
E os riscos do transporte do lixo exportado por Ilhabela ou mesmo, como até recentemente, os danos causados por freqüentes acidentes no terminal de petróleo, estão sendo esquecidos.
Precisamos estar atentos e mobilizados, mas com a razão, pois existe uma agravante em Santos que é o calado da barra e os altos custos de dragagem no Valongo. O Estado com o maior PIB do país depende de portos modernos. Vamos exigir o menor impacto ambiental como também melhor compatibilização dos fluxos e integração com os portos de Santos, Paranaguá e Angra, para melhor eficácia dos investimentos do país.
Deveríamos também questionar nosso modelo de exportação, que poderia gerar mais emprego e valor adicionado. Vultosos investimentos em ferrovia e porto como Tubarão e Itaqui, para entregar minério de ferro, aos chineses, por exemplo, que depois nos enviam panelas de inox de baixa qualidade.
Redigido em 23/07/09
Irineu Nalin é economista e ambientalista
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(1) "Eu também queria esse canal só para velejar, mas a natureza nos deu gás e petróleo que temos que explorar e para a economia andar precisamos de um bom porto para exportar, vamos usar a tecnologia para um menor impacto ambiental causar."
Publicado no Jornal Canal Aberto.