Andréia e os saquinhos plásticos

 

Regina Helena de Paiva Ramos

 

- Como é que a senhora quer que eu me arranje com o lixo de banheiro e com o lixo de cozinha? Perguntou minha empregada, desesperada, quando eu lhe disse que não queria mais usar saquinhos plásticos.

O que eu quero é simples: quero que ela utilize o método que se usava na minha casa quando eu era menina – lá se vão mais de sessenta anos! – e que era muito simples, forrava-se o cestinho do banheiro de jornais velhos e fazia-se o mesmo com o lixo da cozinha. Embrulhava-se tudo muito bem e colocava-se numa lata de lixo, que o lixeiro, ao passar, esvasiava, devolvendo a lata. Esta era lavada e no dia seguinte repetia-se tudo. Andréia faz um ar de dúvida e de pouco caso.

Não é a mesma coisa...” insiste.

 

 

 

 

 

 

 


 




Claro que não é a mesma coisa. Talvez dê um pouco mais de trabalho, mas é politicamente mais correto para com o meio ambiente.

- E as compras do supermercado, da feira? Pergunta, cada vez mais ensimesmada.

Explico que se usava as boas e velhas sacolas de compras, que poderiam ser de lona, de algodão, de macramé. Eu mesma me lembro de ir à feira para minha mãe quando tinha pouco mais que 12 anos levando duas sacolas e voltando com elas cheias. Voltando de bonde.

Em boa hora alguns supermercados estão estimulando os clientes a levarem suas compras em sacolas e a desprezarem os saquinhos plásticos. Sei muito bem que não vai ser fácil. Sabia disso bem antes das reações incrédulas e decepcionadas da Andréia. Vai ser difícil convencer a população. Tenho feito algumas reuniões no meu edifício em São Paulo com as empregadas domésticas porque implantamos no prédio a coleta seletiva. Em geral, elas conhecem o assunto, sabem que uma sacolinha de plástico leva tantos anos para desaparecer do ambiente, mas na hora do “vamos ver” não querem saber de seguir as orientações.

Temos que ir com calma. Até porque, no pequeno universo do meu prédio – quarenta e oito apartamentos – a síndica trabalha numa empresa que fabrica sacolinhas de plástico e não concorda que as sacolinhas sejam, como ela disse, “o vilão da história”. Para ela é preciso usar as sacolinhas com critério, não utilizar duas de cada vez e reaproveita-las, sempre que possível. Também está certa.

Mas entre a síndica, a Andréia e eu – como se pode ver – existem algumas diferenças de pensamento. Grandes. Não, não vou dizer que seja preciso achar o meio termo. Qual meio termo! O que é preciso, mesmo, é acabar com as sacolinhas, as pets, o monte de plástico que vai terminar nos bueiros, nos rios, no mar, na orla das praias, nos “lixões” das cidades. Sei que isso não vai acontecer já.

Há que tomar ações paralelas: educação ambiental nas escolas, nas fábricas, nos condomínios, nas comunidades, nas associações de bairro. Convencimento e informações aos prefeitos dos mais de 5 mil municípios do país. Campanhas governamentais Tudo isso para atingir as pessoas e conseguir uma reforma nas consciências, criando possibilidades efetivas de construção de cidadãos no estrito significado da palavra: gente apta a agir, dentro da ética e dos direitos que a população tem e, às vezes, nem sabe que tem. Há que falar no assunto com conhecimento, sem exigências imediatas, mas com firmeza. Um dia acontecerá: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Não pode ser daqui a muito tempo.

Em São Sebastião as coisas já estiveram muito melhores em termos de coleta seletiva. E é preciso refletir muito na hora de saltar do sistema atual – coleta seletiva e exportação do lixo para outro município – para um outro qualquer. Desprezar a coleta seletiva seria um crime!

Li outro dia um artigo do professor Francisco de Oliveira, de Ciências Sociais da USP e ligado ao CEBRAP, incluído numa publicação do Fórum Nacional e Participação Popular nas Administrações Municipais. “Ao invés, portanto, da proposta neoliberal de que o Estado deixe de intervir na economia e na sociedade a proposição agora é que a sociedade civil seja capaz de intervir no Estado, seja capaz de fazer-se presente no Estado.

Isso vale para muita coisa. A sociedade civil, que muitas vezes, quando organizada, sai na frente com ideias mil vezes melhores que a de políticos e com ações muito mais eficientes tem que mostrar aos governos de suas cidades que está na hora – aliás, já passou da hora – de colocar em prática a coleta seletiva e de estimular ao máximo a reciclagem. Intervir, sim, radicalmente. Exigir atenção para o assunto do lixo.

Algumas cidades enormes – as maiores do país – estão vendo seus aterros sanitários, que muitas vezes nem podem receber esse nome – são lixões desorganizados e pavorosamente perigosos para o meio ambiente – esgotarem sua capacidade de armazenamento. E daí?

A primeira solução, a mais simples, é a coleta seletiva, com a respectiva reciclagem. Depois vêm as outras.

E como estamos falando de sacolinhas, vamos também falar do plástico em geral. O assunto é muito mais amplo do que possamos pensar à primeira vista. Quase tudo, hoje, é feito de plástico: brinquedos, telefones, caixas de computadores, peças de carro, roupas (de nailon e de poliéster), canos, dutos, fios, sapatos, óculos, janelas, recipientes de cremes, alimentos e bebidas, utensílios de cozinha, copos, pratos, talheres, redes de pesca, cabides, móveis, ferramentas de jardinagem, elementos utilizados em cirurgias. Quase tudo deriva do petróleo, é fácil de fazer, é barato. E leva centenas de anos para desaparecer.

Se não forem tomadas providências o mundo será soterrado por milhares de objetos de plásticos.

A reciclagem e o reaproveitamento são as soluções. Pelo menos por enquanto. É possível reutilizar embalagens plásticas de sorvete ou de margarina para guardar outros alimentos. Há artesões que experimentaram e conseguiram confeccionar bolsas, sacolas, bonecos, utensílios de cozinha e até móveis com garrafas pet. Em São Sebastião a bióloga Cristiane Cabrera faz isso há anos e muito bem!

O que não se deve é permitir que esse plástico todo vá parar nos lixões, entupa bueiros e fique boiando nos rios e no mar. Por falar em mar, biólogos já acharam tartarugas mortas com sacos plásticos enfiados no pescoço, impedindo-as de respirar. E animais marinhos foram encontrados, mortos, com copos plásticos, tampinhas de garrafa e pedaços de plástico no estomago.

Voltando aos lixões. Eles liberam gazes que contribuem para atacar a camada de ozônio que protege a terra dos raios ultravioletas do sol e ajudam a formar o efeito estufa. Esse efeito estufa é o vilão que – por reter calor demasiado na camada inferior da atmosfera – vai acabar tornando a terra mais quente. Dizem os cientistas que a camada de gelo dos pólos já está derretendo ano a ano. Algumas ilhas e muitas cidades da orla dos continentes poderão desaparecer.

Estou fazendo terrorismo? Não, isso é o que os jornais publicam diariamente, com grande destaque. Durante a Conferencia do Clima em Copenhague, realizada em dezembro/2009 (45 mil participantes do mundo todo, chefes de Estado, autoridades, ongs ambientais e mais de três mil jornalistas) Al Gore afirmou que o gelo polar poderia derreter em cinco anos. Então o que estou dizendo não é terrorismo. Al Gore é um dos mais sérios e bem informados ambientalistas do mundo. Albert Arnold Gore, político nascido em 1948, foi vice presidente na gestão de Bill Clinton e é conhecido pelo seu ativismo ecológico e pelos livros publicados. Ele sabe bem o que diz.

Verdade que não são apenas os lixões que liberam gases capazes de destruir a camada de ozônio e contribuir para o efeito estufa. Caminhões, tratores, automóveis, motocicletas, aviões também são os culpados. Desmatamento, queimadas, chaminés de fábricas, aquecimento das casas pelo carvão, há toda uma série de vilões. Isso sem falar nos clorofluorcarbonos, os famosos CFCs, encontrados em geladeiras, frizers, e em diversos sprays. Vulcões também são os inimigos naturais da camada de ozônio.

Mas como estávamos falando sobre plásticos, não poderíamos deixar de lado os lixões onde eles vão parar e levam mais de cem anos para desaparecer. Aliás, esta é uma estimativa. Ninguém é realmente capaz de dizer em quantos anos o plástico largado ao relento ou acumulado nos lixões desaparecerá.

Toda essa conversa por causa da Andréia e da sua descrença de que poderá deixar de utilizar saquinhos plásticos de super mercado. Um dia todas as Andréias deste país serão convencidas a trocar saquinhos de plástico por sacolas. E a gente espera que isto não demore muito.


Regina Helena de Paiva Ramos
, jornalista e escritora, é vice-presidente da Federação Pró Costa Atlântica