Desabafo
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Regina Helena de Paiva Ramos
Quando, em 1970, comecei a construir minha casa em Juquehy, as margens do córrego que passa perto só tinham bambus. Eu não conhecia nada de leis ambientais e nem tinha ideia do que fosse mata ciliar. Aliás, na época, ninguém sabia nada sobre meio ambiente. Mas, à medida que ia plantando árvores no meu jardim também ia plantando na beira do rio. Não sabia o que era mata ciliar, mas achei que ficava bonito.
Durante anos, plantava e os funcionários da prefeitura cortavam. Limpavam as margens e, com o capim, iam também as mudas que eu plantava. Ah! Mas eu não desistia! Ia lá e plantava novamente.
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Em 1985 a SAMJU fez o parquinho infantil na beira do rio e eu expandi minhas plantações na beira do córrego.
Por esse tempo eu já sabia o que era mata ciliar e sua importância e continuei plantando. Plantava e os funcionários da prefeitura cortavam. A foice deles era impiedosa.
Um dia expliquei ao Sinhozinho, um dos funcionários da prefeitura dos mais esforçados e simpáticos (e que morreu há alguns anos) o que era mata ciliar. Ele entendeu e nunca mais ceifou as mudinhas que eu plantava. O que não significou que outros deixassem de eliminar a mata ciliar que eu tentava restabelecer.
Tudo o que sobrava das podas que fazia em casa era “enfiado” na beira do córrego. Sementes de jambo, de juçara e de jerivá, essas eu simplesmente jogava e muitas nasciam. Acabei plantando guanandis que hoje estão imensos. E pau brasil, alguns já com dois ou três metros.
Pois vejam o que aconteceu agora.
Parênteses na história: a Prefeitura de São Sebastião resolveu pavimentar ruas de Juquehy e em vez de reparar a av. Mãe Bernarda e a avenida de entrada – que foram pavimentadas na década de 90, pelo prefeito Luisinho, e nunca mais receberam quaisquer reparos – resolveu pavimentar outras ruas. Afinal, ano que vem é época de eleições e antes que se diga que nada foi feito... tome pavimentação. E pavimentação sem projeto de drenagem anterior.
Juquehy tem sofrido muito com enchentes nas grandes chuvas. O único córrego que corta o bairro – esse mesmo que se chama João Rita e passa perto da minha casa – não suporta mais as águas pluviais que, impermeabilizada grande parte do bairro com casas, quintais revestidos e ruas pavimentadas – extravasa. Se a maré é alta a coisa toma vulto de catástrofe.
Mas, para a Prefeitura de São Sebastião, que fica lá no centro da cidade, não importam as enchentes na Costa, aquele lugar lá longe, na divisa com Santos – ou na Bertioga, acho que eles nem sabem bem onde fica a divisa... A verdade é que 80% da população de São Sebastião nem nunca veio pros lados de cá e vereadores, secretários e prefeitos vêm muito pouco. Quando tem enchente lascam um trator arrebentando margens de rios e derrubando árvores, como fizeram em Camburi há pouco tempo. É o jeito que eles sabem de fazer as coisas.
Plano de drenagem? O quá! Como diriam os caiçaras antigos.
E agora isso se repete em Juquehy: sistema de drenagem? O quá! Toca pavimentação, para impermeabilizar mais o bairro e aumentar as enchentes. Os moradores que se lixem, o que é importante é bloquetear, olha só como esse prefeito “faz” coisas!
Fechado o parênteses da pavimentação: os bloqueteadores estão há três semanas na rua Davi – a minha rua – e se esmeraram em derrubar as árvores que plantei durante 40 anos na beira do rio. Fizeram um canal de drenagem para o rio, espicharam a rua na direção do rio acabando com um guanandi e com mais de dez pés de palmito juçara e jerivá, mudas de jambo e de outras árvores. Intactas só ficaram alguns pés de areca bambu...
A incompetência é tão grande que o Dag – me informaram que foi ele o engenheiro responsável pela obra (obra?) me disse que o “caimento” está perfeito... Mas que “caimento” cara pálida? A enchente nas grandes chuvas chega a um metro de altura no meu portão (vejam foto que minha caseira tirou com o celular e que acompanha este “Desabafo”...) e o homem vem me falar em “caimento”? O que precisa é plano de drenagem! Drenagem? O quá drenagem, bós sabeis dereito o que que se chama de drenagem? O quá que sabem, arrelá!
Tem mais: os peões da obra abriram meu portão na ausência dos meus caseiros (o portão tinha corrente e cadeado!) e enfiaram lá dentro a máquina assassina que está cometendo o bloqueteamento na rua. Tá de bom tamanho ou querem mais?
No dia da reunião da Federação Pró Costa Atlântica o Eduardo do Rego, secretário de Meio Ambiente e o Silvinho Nogueira, seu adjunto, estavam lá e foram ver o estrago: ficaram abismados. Chamei também a Polícia Ambiental. O policial olhou a beira do córrego e comentou: “É. Exageraram.” E o Jorge Paulo, regional de Juquehy me pediu desculpas. O Dag não apareceu...
E a mata ciliar que se dane!
Regina Helena é jornalista e escritora. Foi Secretária de Meio Ambiente da Prefeitura de São Sebastião de 1993 a 1996. É vice-presidente da Federação Pró Costa Atlântica.