A Lenda do Pote
Irineu Nalin
Entre muitas estórias contadas desde os tempos dos escravos consta a Lenda do Pote com Moedas e Ouro. Isso se passou nos primórdios da colonização destas terras, muito tempo depois que Cabral tomou posse em nome da Coroa Portuguesa.
Para sua colonização o Rei optou por destiná-las em grandes glebas denominadas Capitanias Hereditárias, que vigoraram até 1759, extintas pelo Marques de Pombal. Utilizou-se como mão de obra os indígenas e escravos trazidos do continente africano. São Sebastião foi um entreposto deles.
Nas encostas do Bairro de São Francisco existem ruínas de um antigo entreposto. Já na costa sul, na Praia de Guaecá, os carmelitas do Convento do Carmo de Santos receberam a partir de 1608 várias sesmarias, entre elas, do donatário Conde de Monsanto, instalando uma fazenda com engenho aonde chegaram a contar com noventa escravos.
Em inventário de 1835 essa Fazenda possuía além de numerosa escravatura: a casa grande da comunidade com várias salas e armazéns, casa, um engenho bem construído, dois alambiques, olaria de fazer telha, com dois fornos, casa de farinha, com roda movida a água, vários ranchos cobertos de telhas, muitas canoas grandes, gado e a Capela Nossa Senhora da Luz, possuía boas alfaias, objetos de ouro e prata e várias imagens.
Em 1864, ocorreu uma revolta dos escravos com o assassinato do Administrador. Outro episódio foi o de um pleito ao Juiz de parte das terras que algumas pessoas ocupavam por concessão dos religiosos, desde a ”ponta do Buraco do Bicho até a Cruz”.
Depois de permanecerem mais de dois séculos e meio no lugar, desestimulados, os padres abandonaram o projeto. Pouco se sabe sobre o período seguinte, pois duas décadas depois com a libertação dos escravos (Lei Áurea, 13/05/1888) a região entrou em decadência e assim permanecendo até o surgimento da ocupação imobiliária.
Naquela revolta constataram o desaparecimento de vários Potes onde era costume guardar moedas e ouro. Um mistério até hoje não desvendado, mas que ainda faz parte da memória de um velho caiçara que ouviu isso de sua avó, sem saber precisar o local onde foram escondidos.
Ninguém mais encontrou esse Tesouro e isso caiu no esquecimento e passou a ter pouca importância para os descendentes que não migraram para o interior e se miscigenaram, permanecendo no lugar sobrevivendo da pesca e de pequenos roçados até quando ocorreu a posse dos novos proprietários que a adquiriram em 1942 da Ordem 3ª do Carmo.
Depois de cento e quarenta e dois anos, alguém ao abrir uma cova para o plantio de mais árvores na área degradada, no morro da Cruz, nas proximidades do “Caminho das Sete Voltas”, que era utilizado na época em direção a vila de São Sebastião, acabou encontrando um deles.
O caiçara que ficou sabendo disso não revela quem achou parte desse Tesouro, mas afirma que o mesmo foi recompensado pelo trabalho prestado em prol da natureza e que sua avó falava dessa profecia. Segundo ele, seis potes restantes estão ainda à espera respectivamente para cada um que merecer recuperando a mata destruída e usada como lenha, desde aqueles tempos.
A foto é mera ilustração, pois ninguém sabe se de fato isso aconteceu ou é apenas uma lenda que acabei de contar.
Ir 30/09/09
Irineu Nalin é economista e ambientalista