Federação Pró Costa Atlântica

A igreja de Juquehy e a história de uma pia

Noticia

Juquehy, década de 70: meu pai vinha da praia e deu com algumas
pessoas construindo o que disseram que era uma igreja. Tinham derrubado
uma capela de adobe, linda, e estavam construindo uma nova sem planta,
sem engenheiro, sem nada. Papai levou todo mundo pra minha casa e ali,
no jardim mesmo, chamou um engenheiro, pediu uma planta, me colocou
na jogada, aprovamos o projeto na prefeitura e a construção começou.
Poucas contribuições, material que sumia, padre que não aparecia. Fiz até
chá no Terraço Itália para angariar fundos e quando faltava dinheiro pedia
socorro a meu pai e o socorro vinha.
No dia da inauguração – ainda sem bancos – papai com mais de
80 anos e já muito doente e dona Antoninha, caiçara de 92 anos foram os
únicos que assistiram à missa sentados... em duas cadeiras de praia.
Durante a construção Nossa Senhora da Conceição ficou hospedada
na minha casa e no dia da inauguração foi içada à caminhonete do Johny,
dono do Hotel Timão, acompanhada de crianças que cantavam e veio vindo
seguida por uma carreta, desde o Timão até a sua nova morada. Pedi, e
o comércio ao longo da Mãe Bernarda fechou as portas pra ver a santa
passar.
O ator Laerte Morrone trouxe um órgão no porta-malas do seu carro
e tocou durante a missa – o padre veio do colégio São Luiz – e a festa foi
muito bonita. Até me meti a fazer versos e crianças – hoje adultos de barba
na cara – cantaram isto:

“ Atenção povo daqui
Temos igreja em Juquehy!
Igreja pra cantar e rezar
Amar, orar, contemplar!
Só isso não deve bastar
Igreja pra construir, respeitar e dividir
Ajudar quem está sofrendo
Esquecer quem nos ofendeu
Ensinar quem quer aprender
Respeitar e tornar bem maior
O nosso amor a Jesus.”

Houve Primeira Comunhão e alguns batizados. Igreja repleta!
Os caiçaras ainda eram maioria e de grande religiosidade. A festa foi
impecável, comovente, ainda tem muita gente viva que deve se lembrar de
tudo.

Para os batizados, comprei uma pia batismal de concreto, muito
bonita e que ficou na igreja até pouco tempo atrás.
Fui a Juquehy neste final de semana pra ver se minha casa ainda
estava no mesmo lugar (não ia há dois meses!) e achei estranho encontrar
algumas pessoas que me falaram que a pia que eu dei para a igreja
havia sumido. Depois alguns telefonemas no mesmo sentido. Um padre
teria levado a pia embora, e a colocara no jardim da casa paroquial de
Boissucanga.
Não entendi as convulsões intestinas da comunidade – todos
falando ao mesmo tempo no assunto, quando a pia tinha sido levada para
Boissucanga já há um bom tempo. O que estaria acontecendo? Primeira
providência: ir ver se a pia realmente tinha sido levada da igreja.
Verdade. Não estava lá.
Fui a Boissucanga. Tentei falar com o padre que atende Juquehy
agora e que provavelmente não sabia da história da pia. Não consegui.
Deixei recado. Um recado meio furioso, já que não era a primeira vez que
sumiam coisas que eu tinha dado para a igreja. Uma vez a crítica de artes
Araci Amaral, minha amiga, deu-me gravuras de uma Via Sacra feita por
um artista primitivo de Pernambuco. Alguém deve ter achado as gravuras
feias e substituiu-as por uma Via Sacra “bonitinha”, dessas compradas em
loja... Poderiam pelo menos ter me devolvido as gravuras, mas ninguém
devolveu. Sumiram. Ou “foram sumidas”.
Agora, isso da pia batismal...
Recebi um recado do padre que levou a pia, “que como há muito não
havia batizados em Juquehy e como a pia não era do modelo adotado pela
Igreja Católica, tinha levado a pia para o jardim de Boissucanga. Mas que
ia devolver...”
Que engraçado! Nascem crianças em Juquehy que nem repolho em
horta. Onde será que são batizados esses repolhos, digo, essas crianças?
E se a pia não era o modelo adequado, gostaria de saber se a bacia de
alumínio que estão usando pra jogar água na cabeça das criancinhas é
modelo adequado...
Isto tudo é um saco! Cada vez me distancio mais do Juquehy de
hoje: praia atulhada de cadeiras para hóspedes de pousadas, hotéis e
condomínios sem que a prefeitura iniba essa prática. Terceiros andares em
profusão quando a lei exige apenas dois e nada se faz para estancar essa
hemorragia de ilegalidades. Lixo acumulado por todo o canto! Avanços
na Mata Atlântica e em morros e nem a Prefeitura nem o Estado brecam
as invasões. Por causa disso e pela falta de fiscalização de esgotos sendo
lançados em rios, deu bandeira vermelha na praia neste final de semana.
Pela primeira vez!
E agora também a Igreja Católica contribuindo para me afastar desse
lugar pelo qual lutei tanto, que me deu muitas alegrias e também muitas

aflições e que amei com toda a força do meu coração. O verbo utilizado
foi esse mesmo: amei. No passado. Não aguento mais ver a praia suja,
o lixo pelas esquinas, os terceiros andares agressivos (alguns são meus
vizinhos de muro!), os barracos invadindo a mata, a bandeira vermelha na
praia e um padre que não gosta de doações para a sua igreja. Ainda tem um
sino, lá, dado por meu pai. Será que vão levar também pra Boissucanga? –
Regina Helena de Paiva Ramos

Imprensa

Artigos

É preciso mudar!

Devemos fazer uma reflexão sobre as eleições em São Sebastião. Eu, pelo menos, quero fazê-la. Em primeiro lugar,...

CONTINUA

Deus é Sebastianense

Continuo achando que Deus é sebastianense. Morros desabaram por tudo quanto foi canto, tragédias enormes se abateram s...

CONTINUA

PARCEIROS